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CRÓNICAS DO OUTRO MUNDO #8: I love this game! [O Jogo]

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

I Love this game 2 – O JOGO 

A hora está marcada pelas quatro da tarde. 

“Tentem chegar na hora, porque não esperamos retardatários. Quem está lá joga, as outras ficam! O autocarro sai às quatro horas em ponto.” – O nosso treinador é muito rigoroso com essas coisas! 

Tudo está lá pronto no momento certo: bolas, uniformes, água, mochilas. As atletas: quase todas! Falta uma, sempre a mesma. Alguém nos avisa que ela está vindo; tranquila, sem pressa, mas está vindo. Agora estamos todas. 

O que está faltando é o autocarro! Começa a circular um pouco de ansiedade. 

“ Temos certeza de que o motorista foi avisado?” 

“Disseram para ele: às 4 horas em ponto?” 

“Quem é o motorista?” 

Às 4:30 o presidente fala ao telefone, depois sentencia: “Ele disse que está prestes a chegar, estava descansando.” 

Finalmente partimos. 

O jogo está marcado pelas 6.00 horas, ainda temos tempo. 

As 5.30 chegamos ao campo de jogo. DESERTO ..... nem mesmo a sombra do adversário  apenas uns miúdos chutando uma bola. 

O vento é forte e quente, algumas colegas apanham umas bolas e começam a brincar. 

“O Jogo será disputado?” “Não será disputado?” “Quem sabe!” “O dia está certo?” 

Começamos a ficar entediadas. 

As 6.30 chegam as adversárias; algumas, não todas. Junto com elas alguns “caras” com uma bola de basquete. Enquanto isso vai ficando escuro. 

“Aquecimento! Meninas!” - Diz o treinador confiante. Pobre iludido! Ele não sabe o que lhe espera. 

Começamos a correr. A bola de basquete atinge o nosso número 10 na cabeça. Tudo normal! Continuamos a aquecer e os rapazes continuam a maltratar o cesto. 

Às 7.00 horas, alguém com bom coração, coloca a rede e a mesa. O vento compassivo parou de soprar, e o sol cansado de esperar, finalmente foi dormir. 

As 7.30, as luzes se acendem. Só duas das quatro lâmpadas. Temos que esperar para que aqueçam os holofotes, eles também tem direito. Depois de dez minutos nada mudou. Mais do que um campo de jogo se parece com um “Night club”. 

O treinador, caiu em uma cadeira instável, tem a cara de quem correu a maratona duas vezes seguidas. As coisas não melhoraram. O campo é escuro como antes e os rapazes do basquete continuam a atingir-nos com a bola. Agora se juntaram as crianças correndo no meio do campo como flechas descontroladas. 

As 8.00 chega o árbitro pontual como o “resgate do Titanic”. Não falta ninguém. 

São as 8:30 e podemos começar a jogar. Há também alguns espectadores. 

Logo depois do primeiro ponto surgem gritos de protesto. Não está claro porquê, nem para quem, nem de quem. Estamos cansadas ​​antes de começar. 

O fiscal do nosso lado brinca com os amigos, e não está de todo interessados ​​no jogo. Um cão inconsciente atravessa o campo em todo o cumprimento. Segue-se um bebé escapado aos cuidados de sua mãe. O jogo pára e recomeça novamente, tal qual o holofote da nossa direita. 

Ganhamos o 1° set. 

Nem temos tempo para sair que um rebanho de miúdos, mais ou menos grande, surgem como que por magia, invadindo o campo e começando a jogar no nosso lugar. Acabado o intervalo de três minutos, gastam-se mais três para limpar o campo de jogo. 

Dois alto-falantes gigantes disparam nos ouvidos um ZUK destrutivo, seja para as orelhas que para a atenção. Algumas das meninas não aguentam o ritmo e começam a dançar. O treinador, que só ouve jazz, está aflito no corpo e na alma. 

Vencemos também o segundo set e segue a mesma cena que no final do primeiro. Contamos dois feridos não graves, uma no joelho e a outra no cotovelo que esfolaram caindo no piso de cimento. Pouco mal: estamos acostumadas com esses pequenos acidentes. 

No terceiro set as nossas adversárias vão à frente e vai crescendo o entusiasmo do público. Cresce demais! Em cada ponto conquistado invadem o campo. Também o nosso campo. Entram e saem como ondas dum mar tempestuoso. 

O nosso treinador chama um time-out, ele nos diz algo importante, mas não entendo. A música está muito alta e dispara direitinho aos tímpanos. 

O time out dura dois minutos, porque o árbitro encontrou um colega para uma conversa. Além de outro dois minutos para expulsar os invasores. 

Perdemos o 3° jogo. Nova invasão festiva. 

Às 21:45 vamos para o quarto jogo. As duas equipas são implantadas, mas o jogo não começa. A senhora da mesa, talvez por causa da bexiga fraca, teve que sair. Retorna apenas depois de um quarto de hora, lentamente, arrastando os chinelos e comendo um pacote de biscoitos. 

Na pontuação de 4 a 4 cai uma bola sobre a linha, o árbitro não a viu, apitou mas não sabe quem fica com o ponto. Envia um olhar suplicante na direcção do outro fiscal. Inútil, ele está namoriscando com sua namorada, a cinco metros de distância com a bandeira debaixo do braço. 

Ponto nulo. 

O passador tropeça numa falha do concreto, um bêbado não aprecia as decisões do segundo árbitro, a senhora com bolacha acendeu uma lanterna para ver onde está escrevendo. 

A partida termina às 22h30. Damos um suspiro profundo, como quando desaparece o soluço. 

Antes de desmaiar o treinador reúne as suas últimas forças para elogiar-nos. 

Vamos à procura de algumas garrafas de água, mas não há nem mesmo um bar aberto. O nosso condutor parece um pouco irritado e ainda temos uma hora de carro para a casa. 

Felizmente não choveu e desta vez ganhamos. 

Só amanhã perceberemos que alguém nos roubou uma bola. 

Yes! I LOVE THIS GAME.


Orazio Minneci, Crónicas do Outro Mundo
maisvoleibol 2013


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CRÓNICAS DO OUTRO MUNDO #7: I love this game! [o treino]

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

 I love this game! 1 - O treino.

Antes de entrar no campo, esperamos por aqueles que ainda estão là dentro. Normalmente são rapazes que jogam futebol e não querem sair, então nós temos que invadir o campo e começar a montar os postes. Uma vez em retaliação lançaram os postes alem do recinto. 

Na hora marcada, se não está ocupado falando em algum lugar, o guardião chega e manda um apito ensurdecedor. Naquele momento, os rapazes começam uma espécie de ladainha de protestos e palavrões, mas sem convicção. É um ritual: eles não querem sair e nós empurrámo-los para fora. Eventualmente, alguém faz uma piada para uma das nossas companheiras, e isso é o sinal de que eles se vão realmente. 

Recuperada as rede e as bolas, precisamos de uma reza que tudo esteja em ordem: uma Ave Maria que o cabo não seja quebrado, um Pai Nosso pela manivela que não seja bloqueada, um Glória porque ninguém esmague os dedos. A rede tem um furo maior do que os outro, nada de mau, podemos jogar igualmente. 

Finalmente começa o treino, com vinte minutos de atraso. Hoje tivemos sorte! 

A porta está trancada mas chega, certa como a fome, a Hora da Criança. Eu me pergunto como eles conseguem abrir? Colocam os dedinhos sob o gancho e silenciosos com gatos de noite, penetram no campo em grupos de dez. Quando nos damos conta já começaram a atirar bolas, saltar das bancadas ou a correr atrás um do outro ate dentro as linhas de jogo. Pelo menos estes são pequenos  Mesmo assim leva mais que 10 minutos para pegá-los todos e colocá-los de volta a rua. E pior do que apanhar uma galinha no galinheiro. Imaginam 10! 

Enquanto isso, tornou-se escuro, não se consegue ver quase nada e o guardião ainda não acendeu as luzes. Deve poupar energia e, até que não é total escuridão, não acende. Depois por milagre, repentinamente como o amanhecer de verão, um momento antes que a noite nos apanhe de surpresa, os faróis acendem: geralmente quase todos, há sempre um que não quer saber, ou que cintila como árvore de Natal. Ainda bem, porque não podemos parar. Já estamos suadas ! 

Entre uma corrida, um manchete, um salto e uma defesa, alguém mandou a bola para além do muro. Então os "culpados" esguicham como relâmpago e correm para recuperá-la antes que alguém rouba-la. ou se perder no meio da cana-de-açúcar. Ou pior ainda, acabar no rio e a água levá-la para o mar. Rezando que isso nunca acabe em uma poça de xixi no beco atrás do Poli. Neste caso, tudo fica mais complicado. 

A bola está de volta e com ela a nossa companheira. Ambas estão molhadas mas, felizmente, é apenas água pura da ribeira. 

O treinador continua a gritar, as meninas arranham os joelhos no cimento e as bolas voam. Rapidamente chegamos ao fim das duas horas de treino. Felizmente, hoje nenhuma tem os pés feridos, apesar que isso faz parte …. pois jogamos descalças. 

No garrafão a água tornou-se quente, mas também está quase terminada. Eu tenho que correr para casa, porque eu estou morrendo de sede e porque a rua é escura. Sou suja como um porco, morta de cansaço, e ainda tenho os trabalhos de casa para fazer. Pior! Estraguei o chinelo direito (porque estraga sempre o chinelo direito?) a minha mãe sem dúvida vai ficar zangada. Que noite terrível  Ainda bem que ontem perdemos 3 a 0.

Ooh! I love this game!


Orazio Minecci
maisvoleibol 2013


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Crónicas do outro Mundo #7: Porque não quero ser mais Treinador

terça-feira, 30 de outubro de 2012


Porque não quero ser mais treinador:

porque ... espaço para o jovem
porque ... o presidente é intrusiva
porque ... devo pensar na minha família
porque ... o garoto é irritante
porque ... tem que explicar as coisas uma centena de vezes
porque ... tem que aturar também os pais
porque ... devo fazer tudo sozinho
porque ... os jovens  de hoje não querem comprometer-se
porque ... preparo os treinos e depois falta sempre alguém
porque ... não aguento os retardatários
porque ... como posso treinar  com três bolas
porque ... nos meus tempos  era tudo diferente
porque ... trabalho muito e ninguém diz obrigado
porque ... ah! se eu dizer o que penso
porque … estou cansado
porque ... esses rapazes precisam de uma babá
porque ... deito fora um monte de dinheiro... insónia
Porque … o voleibol chupa toda a energia
Porque … não aguento mais

Um ano?

Ok ..... mais um ano, apenas um!

Mas o próximo ano, juro que vou parar de verdade!



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Crónicas do outro Mundo #6: Emigrante

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Emigrante

A minha ilha Santo Antão é terra de emigrantes. Há aqueles que vão para o exterior e há aqueles que vão para São Vicente. Deixam as montanhas íngremes de pedra vermelha para a cidade, deixam os vales verdejantes para o sol seco e poeirento. Deixam a pobreza para a esperança.

Santo Antão não tem universidade, e os alunos que tenham concluído o décimo segundo ano são forçado emigrar. Eles vão para Portugal, Brasil, algures nos Estados Unidos. Outros vão ao Mindelo, para além do canal, e outros como eu para a cidade da Praia.

Aqui podemos estudar e com um pouco de sorte encontrar um emprego. E também jogar voleibol. Eu sou passadora, jogo na equipa campeã regional há vários anos. O pavilhão desportivo tem pisos de madeira, as nossas uniformes são sempre em ordem e as minhas companheiras são também as minhas melhores amigas, talvez porque todas cobrimos o mesmo caminho.

Da ilha mais ao norte para a ilha mais ao sul, dos subúrbios distantes até a capital, do sossego dos pomares ao tráfego fumado. Como nos filmes, em busca de um sonho. Mas aqui eu não posso sonhar. Deixei os meus sonhos em Paul. Nas longas noites sentada nos degraus da casa conversando com amigas e ver passear os mesmos rostos antigos. Nas caminhada de quinhentos metros até a praça da Camara Municipal, no sal que o mar atrevido espalha nos rostos em noites de vento. Na minha equipa de volei, tão antiga e tão nova. Que a cada ano perde peças e todos os anos coloca novos. Uma árvore frutífera de atletas cujos frutos vão alimentado outras ilhas.

Agora nós, vestidas em cores diferentes, lutamos para ganhar o campeonato nacional. Se tivesse que disputar-lo contra a minha antiga equipa, sempre nova, talvez torceria para ela. Talvez.


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Crónicas do outro Mundo #5: Dois metros para sonhar

segunda-feira, 11 de junho de 2012


Dois metros para sonhar

Quando, á alguns anos, aterramos no aeroporto de Lisboa ainda era verão e estava quente. Mas quando o inverno chegou, o primeiro dinheiro ganho foi-se por um par de sapatos e um blusão. Não era o contrato de Luís Figo, mas eu era um profissional. Eu sou um profissional???

Em criança, nem podia sonhar com isso. Em São Vicente o voleibol era uma coisa para poucos, não como o futebol que se joga em cada esquina. Eu que bofeteava uma bola de baixo do sol de Laginha: duzentos metros de areia onde se podia estrelar um ovo, de tanto queimar.

Todos os dias na praia e às vezes no ginásio. Com três ou quatro companheiros, o mesmo sozinho. Com uma bola esfarrapada e um par de calções de nylon que se colavam às pernas.

Eu, que tive o primeiro par de ténis com 18 anos. Eu, que jogava durante o dia e depois, à noite, corria ao longo da Avenida Marginal refrescada pela brisa da noite da baía. De baixo dum céu estrelado, onde a lua está tão perto que podes tocar-la. Em seguida, uma equipa, um treinador, os pés que se esticam nos chinelos, fortalecem os braços e a minha cabeça que se levanta até dois metros, até ao sonho.

Agora sou uma espécie de herói. O primeiro Cabo-verdiano profissional. Um herói com ténis e cuecas. Um profissional de voleibol que vagueia pela Europa rematando bolas de outro lado da rede, em pavilhões com ar condicionado e milhares de espectadores. Sempre com equipamento novo e um saco cheio de satisfações.

Dizem-me que um garoto, perdido em minha própria terra dividida, sonha em se tornar como eu. Desejo-lhe de todo o coração.

Mas eu pagaria para me sentar na areia de Laginha tocando com a lua cheia.


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Crónicas do outro Mundo #4: Rua Agostinho Neto

quinta-feira, 24 de maio de 2012


Rua Agostinho Neto

Na frente da minha casa há uma cancela talvez verde, velha e enferrujada. Acima de um armário, numa das casas por aqui, ainda deve haver uma bola de trapos.
A estrada é estreita e a calçada secular é tão desigual que a chuva forma poças onde se pode nadar.

Este foi o meu primeiro campo de treino. A cancela foi a nossa rede sempre disponível. A todas as horas do dia até tarde a noite, jogando sob o brilho opaco das lâmpadas amarelas. Nenhum treinador, sem calendário, sem linhas, apenas escassas compartilhada regras. Era suficiente alguém sair à rua para as outras amigas aparecerem de repente como Hibiscus ao orvalho da manhã.

Por outro lado, todos vivem dentro de 20 metros no centro da antiga Rua Agostinho Neto. Mesmo agora que o nosso objectivo é o campeonato nacional, muitas atletas da nossa equipa vivem aqui.

Não me lembro quando começamos a jogar com a primeira verdadeira bola. Provavelmente alguém nos deu, talvez o treinador ou o presidente. Eles também vivem aqui nos tais 20 metros da antiga Rua Agostinho Neto.

A nossa é a segunda geração de atletas nascidas nos dois lados da cancela talvez verde. A primeira já foi campeão, a terceira se apoderou do campo. Assim nasceu e cresceu o volei feminino no Paul.

Quem olhar para a estrada às sete da noite pela "frescura na sinfonia adocicada dos coqueirais" *, vê balões voando, crianças chorando, mães pacientes felizes aturando o barulho e o miado da cancela.

O jogo continua como coladeira infinita, sem pontuação ou tempo limite, nenhum juiz ou suplente. Até a noite, quando o jogo irá pôr-se para voltar a surgir amanhã a uma qualquer hora do dia, na Rua Agostinho Neto.


*Verso de Agostinho Neto no poema “Fogo e Ritmo”


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Crónicas do outro Mundo #3: Um domingo ensolarado

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um domingo ensolarado!

Hoje é um dia ensolarado. Um daqueles dias que ao abrir a janela a luz te cega.

Deves fechar e reabrir as pálpebras lentamente para ver esta jornada.

Hoje é um domingo ensolarado. Um domingo com sol e com jogo de voleibol.

O mar é suave e silencioso, pois não foi assim por meses. O meu é mar verde e azul. É só atravessar a rua e mergulhar, resistir ao leve arrepio de frio dos primeiros momentos e, em seguida, deixar-me balançar por horas, até a noite.

Eu poderia, mas não hoje. Antes do jogo não se pode nadar no mar, porque é muito cansativo. Todo o mundo sabe.

O sol ficou lá bem alto até as cinco da tarde, para aquecer a água e o cimento da quadra de voleibol. Então ele se sentou na tribuna para assistir o nosso jogo.

Também hoje deixamos o campo chorando. Desta vez de raiva, porque perdemos.

Não mais gritos e saltos de alegria, nem aplausos nem carrosséis, abraços apenas para consolar uma a outra. Tantas lágrimas; de tristeza e raiva por ter perdido, mas também por ter jogado mal. Muito mal mesmo. Eu acima de todas. Se eu tivesse ido para o mar teria sido melhor.

Tenho certeza que o treinador está irritado, com certeza vai repreender-me.

Na verdade, nos reuniu, e como de costume diz-nos algo. Neste momento gostaria de ter tampas nos ouvidos.

Mas não está irritado! Não grita, está desapontado, pode ver-se pelo seu olhar. Mas não grita como costuma fazer nos treinos. Ele diz que são coisas que acontecem no voleibol. Ele diz que o voleibol é um desporto bonito e terrível ao mesmo tempo. Ele diz que tem nos visto tentado reagir aos erros, mas não conseguimos fazê-lo juntas, como uma equipa unida. Por isso, nos sentimos tristes. Ele diz que mesmo quando uma equipa perde, mas deu tudo o que tinha para dar, todas juntas, as atletas percebem o ser equipa, e uma verdadeira equipa nunca é triste.

Caramba! De novo, não entendo o que ele quer dizer. Mas ele disse isso muito bem. Sinto-me mais calma, muito melhor. Serena. Mesmo as minhas amigas parecem mais serenas e pararam de chorar.

Enquanto isso o sol pôs-se para dormir. Tenho certeza que amanhã vou abrir a janela, apertar as pálpebras, e devagar eu vou ver a sua luz brilhar e o meu mar azul e verde.



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Crónicas do outro Mundo #2: Ontem ganhámos!

domingo, 13 de maio de 2012

 Ontem ganhámos!

Que felicidade! Ontem à noite, vencemos o primeiro jogo da nossa história. Na verdade não temos uma longa história. Mas é a nossa primeira vitória.

Eu nem podia acreditar. Todos abraçadas no meio do campo por círculos. Gritos vindos de todos os lados. O público que aplaudia, nos fizeram elogios, e em seguida, todas chorando. De alegria!

Eu até vi a minha avó em pé a saltar.

Quase que nos esquecemos de cumprimentar as adversárias. Talvez nos desculparão, não estamos muito costumadas.

Jogamos quase todas, mas também aqueles que não jogaram no final choravam. Também de alegria.

O treinador deu um pequeno aceno de alegria e foi logo parabenizar os adversários e o árbitro.

Quando tudo acalmou ele chamou-me e disse-me: -Vem, que vou curar-te a ferida – A ferida? Eu nem percebi de ter um joelho esfolado. Nada sério, isso acontece muitas vezes jogando no campo de betão. Aproximei-me do banco, a minha amiga já la estava com um saco de gelo sobre o cotovelo.

Bem - disse o treinador - dois feridos e dez desaparecidos. - Então, ele chamou as outras e nos encontramos nas bancadas. Ele cumprimentou a equipa toda e por cada uma elogiou as coisas boas que fizemos. Algumas para o serviço, outras para a recepção, outras pelos ataque. Eu recebi elogios para duas defesas. É bem por isso que estou machucada.

Então, antes de dizer adeus, disse algo estranho: Aproveitem esta vitória, mas não parem para remirar-la. Olhe para horizontes longínquos. Até onde alcança a vossa imaginação.

Ele faz um pouco de poeta, e eu não entendi muito bem o que ele queria dizer. Vou pensar um pouco nisso nestes dias.




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Crónicas do outro Mundo #1: Hoje à noite há jogo de voleibol!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Hoje à noite há jogo de voleibol!
Estou muito animada, porque jogamos em casa e é a primeira vez. Nós começamos no ano passado no voleibol da escola e este é o nosso primeiro campeonato. Temos 13 e 14 anos e as nossas adversárias são todas maiores e mais fortes, mas o treinador disse que o importante é deixar o campo com o aplauso da plateia.

Haverá muita gente a ver-nos, praticamente toda a aldeia. Por outro lado, aqui nada acontece e cada jogo é um evento que todo mundo quer participar. Estou um pouco preocupada, porque eu não tenho sapatilhas. Na verdade não é assim, temos um par em dois a minha imã e eu, nós as usamos só quando há alguma actividade desportiva na escola. No treino não, porque caso contrário arruínam-se. Então eu vou treinar com os pés descalços, quase todas as minhas colegas treinam com os pés descalços, embora algumas tenham um par de sapatilhas por si só.

O nosso treinador é bom, porque nos comprou algumas bolas, garotas mais velhas dizem-nos que treinavam com uma bola só, às vezes dois.

Eu nem joelheiras tenho, mas aquelas não contam muito no nosso campo, porque sendo tudo cimento não podemos mergulhar senão nos machucámos. Na verdade, nenhum de nós tem.

Eu estou aqui na escola, na hora de matemática, mas em vez da calculadora vejo o placar com seus números vermelhos e verdes. Eu deveria concentrar-me mais ... mas esta noite tem jogo.

Apenas acaba a escola eu corro para casa e logo em seguida para o campo, pois temos apenas o tempo suficiente para fazer o aquecimento. Eu certamente não quero ser a única atrasada. Nós todos queremos estar na hora certa, caso contrário, o treinador chateia. No principio eu não entendia essa coisa de pontualidade. Para mim era só esperar o suficiente para que todas chegassem e começar a treinar. Mas agora eu mudei de ideia. Nos jogos, é importante que cada uma se esforce ao mesmo tempo, é isso que forma o espírito da equipa. Chegar a tempo também significa jogarmos todas juntas como uma equipe.

O dia está fresco e há algumas nuvens, esperamos que não chova caso contrário o jogo será suspenso. Ao contrario, o vento não me incomoda; às seis da tarde geralmente deixa de soprar. Talvez ele também saiba que naquela hora tem jogo de voleibol.
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