DEPOIS DO JOGO: Giro Giro é o Voleibol a Sério

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

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Este artigo ocorreu-me depois sair de um jogo de infantis de voleibol e assistir nos campos exteriores a um torneio de futebol com equipas informais desde escolinhas até sub16, e nessa altura pensei: "e se a Federação Portuguesa de Futebol se lembrasse de federar estes miúdos todos? macacos me mordam mas o número de praticantes ia disparar entre miúdos que se inscrevem logo em Outubro e os que se inscrevem ao longo do ano... seriam números interessantes para apresentar a ministérios, secretarias e institutos." 
E depois não sei porquê lembrei-me do Gira e de uma conversa que teve como cerne os campeões nacionais de Gira+ estes dois belos moços alentejanos inscreveram-se e em pouco mais de duas semanas (entre inscreverem-se e jogarem a final) foram campeões nacionais com todo o mérito desportivo, mas se nesse instante pudéssemos voltar a trás no tempo e tentar perceber o percurso de cada um dos adversários uma das ilações que podemos retirar é que o que interessa é o acto de federar e quantos mais federarmos melhor, se serão atletas ou não, é totalmente irrelevante, o que interessa são os números, mesmo que se deixe desprotegido o voleibol a sério estamos a canalizar muitos recursos + dinheiro para "números". 

Não estou a retirar mérito aos jovens que jogam durante esses dias, eles são atletas completos sempre prontos para mais um toque de dedos. Este é o aspecto deformador dos Giras e que eu gostava que se discutisse, é que isto nem é voleibol de pavilhão, nem de praia, nem tão pouco mini voleibol.

Realmente, o Gira Volei, é mais do que um passatempo é uma espécie de voleibol, distrai, e se juntarmos todos os que a ele brincam representam um grande bolo de jovens federados que vendo bem ainda criam um monte de clubes e talvez ajude a tornar o voleibol a sério na 2ª modalidade de Portugal. Durante algum tempo ainda monitorizei Gira Volei e os nossos miúdos foram campeões nacionais logo na primeira edição em 2000, mas nunca se chegaram a interessar por voleibol e registei esta situação vezes sem conta, talvez porque aos olhos de quem joga voleibol o Gira é algo de anormal. As pessoas aceitam o Voleibol mesmo sem perceber. Agora o Gira Volei? 

Tanta coisa que se podia dizer do Gira! Quantas vezes nos últimos 13 anos rezei para que o Gira fosse a salvação do voleibol a sério, alguns profetizavam que este seria o motor das modalidades pavilhão e praia e eu já imaginava (há 13 anos atrás) grandes campeonatos nacionais plenos de equipas e atletas, e nessa altura sonhava que perto do fim do mundo (21-12-2012) seria possível escolher que voleibol abraçaríamos, se o de pavilhão, se o de praia e estes seriam disputados no norte, sul e ilhas tal como o Gira... Mas era um sonho, volvidos 12 anos temos menos equipas seniores e uma III divisão prestes a desaparecer.

Posto isto, será que compensa em termos desportivos o que se investe em euros? Será que compensa em euros o que se investe em Gira?

Se o Gira abriu as portas de muitas escolas aproveitem agora isso para que se apresente o NOSSO Voleibol e canalizem esforços para talvez lançar um campeonato escolar regular ao invés de encontros pontuais do Gira e do Desporto Escolar... 
Calma! Até eu o maior dos optimistas que deu ao Gira não 1 mas 12 anos para se provar, ou seja, 3 ciclos Olímpicos completos, sei que isto do voleibol escolar é complicado para não falar de utópico, por isso propunha algo mais óbvio como apoiar directamente as associações e clubes com formações frequentes e financiamento tal como acontece com esse desporto que inventaram, comparando colocaria as coisas assim: o râguebi e o futebol americano são muito parecidos para quem desconhece as regras mas são muito diferentes para quem os pratica e por isso têm associações e federações diferentes e o mesmo se devia passar com esta invenção que é boa mas não é voleibol... é parecido, é o GIRA VOLEI. 

Tudo é discutível mas pouco se discute e deixamos que pensem por nós e nos convençam que somos nós que queremos tudo o que é decidido sem ter de se ouvir atletas e associações, mas continuamos a dirigir, treinar e ensinar mesmo que nos sintamos prejudicados (inclusive nas nossas liberdades) do que contrariar os colarinhos brancos, porque afinal é lá que julgamos estar a faca e o queijo na mão.

Espero ter lançado bases para um debate mais esclarecedor, um debate que interessa a todos os que jogam e treinam. E com sorte ter despertado para um assunto que talvez nunca tivessem pensado.

Será que não seria mais profícuo ter um voleibol com alicerces em valores de trabalho continuado do que construir um satélite que Gira por força de "atletas" de ocasião?

O que aconteceria se fossem canalizados os recursos prodigalizados no Gira para actividades como campeonatos regionais de pavilhão e praia para atletas de formação?

A racionalização que faço a seguir não é um encerrar de assunto, espero que todos possamos pensar mais além do desporto e ver como se usam e continuarão a usar pessoas como números para daí tirarem algum proveito.
Arrisco a dizer que o que aconteceu com o Gira pode muito bem ser descrito como a "doença do cupido" apesar do voleibol se apresentar decrepito o Gira é uma doença que devido às benesses que trás faz senti-lo mais vivo, outra questão que coloco é: será que vale a pena matar uma doença que faz acreditar que estamos bem, que somos a segunda modalidade nacional, ou seria preferível tratar esta doença e expor o verdadeiro estado da nossa modalidade? desta perspectiva talvez valha a pena viver com esta doença.

Deixo uma saudação ao excelente trabalho feito pelas associação e clubes que defendem e promovem o mini voleibol como meio de divulgação do NOSSO Voleibol. Um Bem Haja a Todos os que Adoram Voleibol.


António Malveiro
maisvoleibol 2013

1 comentário:

Carlos Caeiro disse...

Antes de mais, os meus parabéns! Que excelente artigo, escrito com conhecimento de causa e lançando a discussão por entre todos os que amam esta modalidade.

Na minha pouca experiência ainda, posso constatar que os jovens que praticam o desporto escolar, pouco ou nada estão interessados na modalidade, o que mais querem é "agradar" às raparigas da escola.

Quando uma vez falei com alguns atletas de desporto escolar de voleibol, em ingressarem num clube a resposta foi algo como "Mas oh professor, isso tem muitos treinos e ocupa muitos fins de semana". Dá logo para perceber que o voleibol na escola é jogado porque ocupa aquele tempo que era morto, e que no inverno chove e é preciso ocupar com algo que tenha um tecto em cima.

Reforço que é um excelente artigo e que gostaria de ver com grande discussão aqui, até porque gostaria de aprender um pouco mais sobre o Gira Volei.

Um bem haja para si e continuação de grande trabalho, como este aqui apresentado.

Um abraço,
Carlos Caeiro

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